SOBRE MACHOS, PACTOS E ESTÉTICA DISSIDENTE

Um ensaio sobre assédio e poder na tatuagem

Nos últimos dias – pouco antes do 8 de março, dia da mulher -, o mundinho da tatuagem voltou a ferver com burburinhos sobre um assunto que já é pauta recorrente: assédio. Partindo de denúncias sobre um tatuador de um grande estúdio do Rio de Janeiro, muitas outras foram expostas, de vários lugares do Brasil.

O que vimos em resposta não surpreende: notas de repúdio e posicionamentos genéricos no Instagram, além de, claro, ataques misóginos. Nos bastidores, muitos desses tatuadores têm seus nomes protegidos, sendo tratados como casos isolados em favor do mercado. O projeto que silencia e oculta esses nomes pode ser chamado de pacto macho-hetero-cis.

 

Para começarmos a entender como se dá esse pacto, é preciso compreender como a masculinidade é construída. A filósofa e teórica queer Judith Butler diz que gênero é uma performance, ou seja, um conjunto de comportamentos socialmente exigidos para que alguém seja reconhecido como homem ou mulher. E a masculinidade, na sociedade patriarcal em que vivemos, é forjada em imposições e falas que carregam, em seu âmago, uma misoginia.

“Seja homem!”.

Ser homem, nesse sentido, não é uma identidade pacífica, é um título que necessita de aprovação e renovação constante através de uma performance construída pela negação absoluta do feminino.

E a principal regra da performance masculina é nunca, sob hipótese alguma, ocupar a posição de vulnerabilidade. Preciado, no Manifesto Contrassexual, lembra que “o ânus não tem gênero”. Todos os corpos o possuem. Ainda assim, há um tabu criado pela sociedade patriarcal que impede o homem de sentir prazer através da “passividade”. 

É como se a feminilidade pudesse entrar pelo cu, ameaçando o seu título de macho. Em contrapartida, o ânus da mulher é tratado, nessa mesma lógica, como algo a ser conquistado e penetrado pelo homem como prova de sua masculinidade.

E o que isso tem a ver com tatuagem? É exatamente essa dinâmica de performance de gênero patriarcal, dominação e ojeriza à passividade que surge ao fechar a porta do estúdio de tatuagem.

Alix Marie, Les Gatiantes, 2016
Alix Marie, Les Gatiantes, 2016

PARA OS OLHOS VEREM

O ato de tatuar é, em sua essência física, um ato de penetração e invasão corporal. A pessoa que está sendo tatuada se encontra deitada na maca, sentindo dor, parcialmente despida e com mobilidade reduzida, numa posição de passividade e vulnerabilidade quase absoluta. Do outro lado, o tatuador dita o ritmo, causa a dor. Ele tem o controle, ele é o “ativo”.

 

Para um homem que foi ensinado que sua masculinidade depende de dominar e conquistar o corpo do outro, essa relação de poder construída no momento da tatuagem é um prato cheio para o assédio. E esse assédio não é apenas um deslize individual: é sustentado por uma estrutura. É um exercício dessa performance de gênero adoecida.

 

 

O assediador se aproveita da submissão forçada de quem está na maca para exercer a dominação que a fragilidade do momento exige. Invade o espaço, faz toques desnecessários e comentários inadequados porque, na lógica do sistema patriarcal e misógino no qual foi criado, aquele corpo vulnerável é mais um território a ser conquistado.

“EU MOSTRO O MILAGRE, MAS NÃO MOSTRO O SANTO”

Na bancada ao lado, está o brother que valida e sela o pacto macho-hetero-cis ao omitir e proteger o aliado. “A casa dos homens”, denominação dada por Daniel Welzer-Lang, é uma metáfora de simples compreensão: a masculinidade busca validação entre seus pares (quem avalia os homens são os próprios homens). 

 

Essa casa é um lugar simbólico, formada por vários cômodos com diferentes níveis de poder, onde a aprovação para entrar no círculo mais exclusivo depende de provar sua fidelidade aos de cima.

 

A homossocialidade (laço de admiração e lealdade profunda sem componente sexual) aqui se faz presente de forma sutil, tendo como pilar a cumplicidade, que visa proteger os brothers acima de tudo e de todos através do silenciamento.

tatuagem de textura da pele feita pelo artista bixxao
@hellyeahsorrymum

QUEM CONTROLA O TRAÇO

Esse controle, no entanto, não termina nos estúdios ou em seus bastidores. Historicamente falando, ele também busca ditar as regras da arte, exigindo a submissão do traço.

 

A indústria da tatuagem se consolidou como um campo amplamente masculino, dominado por essa performance do controle, a partir das primeiras práticas da tatuagem ocidental ligadas a subculturas dominadas por homens como marinheiros, gangues e soldados.

 

Os homens eram quem controlavam, para além do ofício, a carreira. Eles eram os artistas e os donos de estúdio, controlavam quem deveria aprender e como esse aprendizado seria oferecido.

 

Esse monopólio do ofício criou um monopólio estético, no qual a tatuagem que é validada e aplaudida dentro da “casa dos homens” necessita seguir certas regras quase inflexíveis, acerca do estilo ou da técnica aplicada. E é exatamente por isso que a entrada de corpos dissidentes – mulheres, pessoas trans, artistas queer, e outras identidades que fogem da norma masculina dominante – na cena, seja segurando a máquina, seja na maca, gera tanto incômodo no topo dessa pirâmide atualmente.

Tatuador Igor Brandão - tatuagem abstrata feita pelo artista bixxao / bixão
@bixxao
tatuagem de textura da pele feita pelo artista bixxao
@hellyeahsorrymum

A nossa ruptura não é apenas ética, é visual.

Ao rompermos com a cartilha tradicional da tatuagem, experimentando e criando a partir de referências, vivências e identidades tão únicas e distintas – muitas vezes incompreendidas por esse grupo do qual discutimos aqui – estamos cometendo um ato direto de insubmissão.

A tatuagem autoral – principalmente aquela que acumula grande distância da tatuagem tida como tradicional – não pede permissão para a régua rígida patriarcal. Não busca domar um corpo, mas fluir com ele, abraçar suas assimetrias, seus ruídos e suas experiências. O traço aqui pode ser incontrolável e, para uma estrutura baseada na dominação, o incontrolável é a maior das ameaças.

Não é à toa que alguns tatuadores conservadores, confortáveis em seus privilégios, têm utilizado tanto do seu tempo e espaço para descredibilizar estéticas dissidentes, taxando-as de “modinha” e questionando seu valor técnico.

O que opera nesse caso não é uma preocupação com a arte da tatuagem em si, mas, mais uma vez, a tentativa de manter controle sobre um ofício que durante muito tempo foi medido pela régua macho-hetero-cisnormativa.

No fim das contas, resistir à casa dos homens – ou poderíamos dizer “clube do bolinha” -, não passa por exigir notas de repúdio ou pronunciamentos vazios. Passa por transformar a própria estrutura que sustenta esse pacto.

Passa por esvaziar seus estúdios e suas macas, e ocupar as nossas. Por recusar estéticas impostas e engessadas, e construir espaços onde nossos corpos não são territórios a serem colonizados, mas lugares de criação, autonomia e liberdade.

Referências bibliográficas

  • BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade.

  • PRECIADO, Paul B. Manifesto Contrassexual.

  • ZANELLO, Valeska. Masculinidade, cumplicidade e misoginia na “casa dos homens”.

  • KARN, Aakash; JAMES, Deanna; JAMES, Colton. Gender Dynamics in Tattoo Culture: Participation, Representation, and Artistic Leadership.